Comparação é um jogo delicado, como já me ensinou meu amigo Dr. Jorge Appi de Matos. Disse-me ele que, se afirmamos fazer melhor que o outro e que o do outro é uma bosta, então o nosso é só uma bosta melhorzinha… tem lógica, claro, serve pra quase tudo. Então nem vou falar de cerveja industrial de larga escala, que isso já foge da possibilidade de comparar.
Hoje vou dizer umas três frases sobre as cervejas artesanais.
Tem cervejaria americana que produz centenas de milhares de litros por mês, e se chama artesanal, até na lei tem esse direito. Tem microcervejaria aqui no Brasil que produz milhares de litros por mês, ou seja, bem menos que essas gigantes, mas que também utilizam máquinas com muitos termostatos e mexedores e tal, controladores de temperatura para fermentação e maturação, lavagem engarrafamento e pasteurização mecanizados.
As microcervejarias, no rigor do termo, não são artesanais, porque por convenção mundial, artesanal é o produto derivado do manuseio direto de um indivíduo, mesmo que ele utilize um máquina -pode ser elétrica mas de controle manual, com os braços- e que a produção não seja em escala. Porque então de terem suas cervejas como artesanais? Bom, eu penso que isso se deva ao fato de que as microcervejarias -e só incluo aqui as que produzem menos de 10.000 litros/mês- produzem vários tipos de cerveja, tem seus donos ligados muito intimamente à pesquisa, desenvolvimento, degustação, consumo, venda, acompanhamento de entregas, compra de matérias-prima, escolha de estilos e variações dentro dos estilos. Assim, uma microcervejaria em que o ‘boi preto do c… branco’, como diz o amigo Jonathan Taborda faz mais do que contar o dinheiro no final do mês, tem muito de artesanalidade, e então até dou um desconto. Veja você que lê, que não estou falando mais de qualidade, que nas industriais nem vale a pena comentar, mas aqui nas microcervejarias, talvez está o melhor que se possa fazer em cervejas, principalmente pela união da criatividade, conhecimento e volume nem tão pequeno nem grande para produções verdadeiramente ‘premium’, não de mentira.
Agora vou falar da classe que me incluo, que é o cervejeiro de panela. Fazemos cerveja como quem cozinha para a família. Nosso produto atende tudo para ser chamado de artesanal, até na irregularidade. Fazemos cervejas com sabores que microcervejarias e grandes cervejarias nem sonham em tentar -e industrias de grande escala nem sabem o que é- porque temos as percepões humanas comandando a feitura de cada leva.
Se o que você bebe não é produto que teve interferência humana na escolha da receita e do preparo, então o que você bebe não é cerveja, mas sim ‘bafebaca’, ou seja, bebida fermentada à base de cereais. E tudo bem, eu também bebo às vezes, tenho amigos que bebem isso, não sou bafebacofóbico!