Acabei de lavar garrafas, o priming já está quase pronto, tudo higienizado. Daqui a pouco começo a engarrafar os 50 litros de Hedônica que já saíram do resfriador de maturação. Pausa para descansar as pernas. Depois cortar papéis para os rótulos, preparar as informações no computador, imprimir, colar e amarrar os barbantes azuis no gargalo. Sete ou oito horas de serviço. Serão umas 80 garrafas iniciando a refermentação.
Deveria estar feliz, meu trabalho não é vazio e não é assim porque sou motivado pelo sonho de que não sou sozinho quando colho os frutos dele. Mas a felicidade não é real se for um objeto individualista. Meu hedonismo prevê, às vezes para meu espanto, que a vida de um não está dissociada dos outros nem quando estamos com dor de barriga. Quanto mais próximos, mais nos afetamos, com ou sem consentimentos. Assim é imperativo que a alegria de realizar um trabalho seja compartilhada, por isso além de outras coisas, conto momentos do meu labor assim, publicamente, afinal quem me lê já não é tão distante.
Nós, brasileiros, estamos construindo uma sociedade bastante cruel, medíocre na verdade. Trabalhar, por aqui, até tem bastante gente que trabalha, muitos são explorados de várias formas. Quando estou fazendo minha cerveja e vejo notícias dos vagabundos do legislativo catarinense, com suas falcatruas, roubando descaradamente um monte de dinheiro com nome de auxílio qualquer coisa, me desanimo. Se eu fizesse uma coisa dessas teria crédito da maioria, provavelmente de vocês que estão lendo isso, também. Esses desgraçados serão invejados nesse natal, com os carros e presentes comprados com dinheiro roubado. E você aí, que trabalha mas tem preguiça de pensar e mudar pequenas escolhas diárias, vai se consolar dizendo a si mesmo que o mundo é assim.
Não vale a pena trabalhar no Brasil, é uma atividade solitária e mal paga. Ao longo do tempo nossos pais, tios, amigos mais velhos, chefes, martelaram indiscriminadamente a lei da esperteza, do ‘certo ele que se deu bem’ e por aí vai. Pena que eu não aprendi a viver com a consciência na privada, aí não seria visto como um ‘alternativo descreditado’, como idealista (=trouxa/otário), nem como alguém sem ambição (=sem visão/frouxo/sem futuro/que não vale a pena). Alguns compreendem que esses meus escritos são crítica e não lamentos, mas são poucos.
Há uma música, que não sei o autor, e diz assim “…forjaram essas paredes, meu exílio dos combates… e mansamente despejam a dor mais dura e mais lenta, que em nada existe sentido, se a liberdade se ausenta.
A noite tem cara de que será longa e silenciosa. Por sorte ainda trago gravadas na alma as palavras do Ricardo: Morro… macho, de pés juntos e atirando!
Que a brisa do final do mundo, que não verei da praia, me conforte e anime.