Escrevi um comentário no blog Panela de Malte, do João Amstaldenem. Como na escrita me lembrei de Portugal, resolvi copiar e adaptar o texto para cá.

João, quando morei em Portugal bebia muito vinho verde, pois morava justamente na região demarcada do tal vinho, mais ou menos desde Aveiro até Viana do Castelo. Ainda eram os anos 1992/94 e haviam ‘tascas’ na região. A comunidade européia ainda não era econômica e os alemães não haviam forçado os latinos a abandonar a ‘forma pouco higiênica’ de servir vinho em jarras e direto das barricas… Acontece que naquele tempo os restaurantes, tascas e bares compravam direto dos produtores, ali de pertinho, economia local. Essas coisas incomodam a indústria que não consegue chupar o sangue de produtor que vive bem no seu lugar, incomoda também esses tipos como vereadores e prefeitos que não conseguem barganhar esmolas para suas festinhas medíocres de final de ano. As tascas que encontrava pela região norte de Portugal eram lugares bem rústicos, onde, em alguns lugares, dezenas de anos antes viajantes faziam parada para entre outras coisas, se alimentar. Também eram bares de final de dia.

Cerveja engarrafada logo após a fermentação, sem adição de priming, completamente natural. Me remeteu a viagens medievais.Em Arouca, na entrada da cidade, comi muitas vezes numa que servia ‘um bife a homem’. A imagem era perfeitamente medieval. Mesas comunitárias de madeira. Provocando o taberneiro, pedia-se ‘um bife a homem’, que obviamente era a especialidade da casa, prova da capacidade do homem que preparava o bife. Uma fornalha, dessas onde se prepara o ferro para forjar, guardava um espécia de grelha com ferros redondos e muito grossos um pouco acima dos tijolos onde havia muito fogo em brasa. Da grelha debaixo, um bom palmo acima, havia outra grelha igualmente grossa. Pois bem, prmeiro o homem cortava um bife de dois dedos de grossura encima de um cepo de uns duzentos anos, lançava sal pelos dois lados. Juntava um pouco da brasa do fundo e esparramava sobre a grelha do alto, formando assim duas paredes de fogo em brasa. No meio depositava o bife, a cena era linda vendo a carne assar com tanto calor sem queimar. O bife chegava fervendo na mesa e se alguém disser que já comeu bife melhor, digo que é por não ter comido deste.

De volta ao vinho.

Eu, entregador de farinha, açúcar, fermentos e tal em padarias, panificadoras e afins, comia como um jumento. Portugal é um dos melhores lugares do mundo para se comer, principalmente quando se está com fome, pois servem sem parcimônia. Coelho, cabrito, carneiro, arraia, cação, frango, porco, gado, cozidos inacreditáveis e, no meu norte tripeiro… vinho verde.

Um dos colegas de trabalho, o ‘seo’ Coelho, nos almoços, quando escolhíamos o vinho, sempre pedia um dedinho de prova. Vinha o vinho, ele enchia a boca e, se não satisfizesse, mandava de volta. Pois bem, porque estou com delongas. Me ensinou Seo Coelho que provar não é com biquinho, é com a boca toda, ‘à granda e à francesa, pois só com a boca toda é que se sabe bem o vinho’. Provinhas realmente dão a cara da bebida, mas para ‘sabê-las’, concordo com ele e contigo, João, só mesmo com a boca toda.
Saúde!