Receita com nome próprio – Pretensiosa

Receita com nome próprio – Pretensiosa

Há algum tempo pessoas próximas sentiam-se à vontade e me pediam para investir num nome para as cervejas que faço. Oficina e Ofício sempre identificou minhas levas, porque é o nome fantasia da minha empresa individual. A questão da identidade parece mesmo importante, até para coisas.

Essa etapa, onde nomino as receitas e já completa mais de um ano, é um complemento do trabalho. O sobrenome continua o mesmo, a produção apenas se aperfeiçoa consoante minha capacidade, por isso o nome dela completo é Pretensiosa da Oficina e Ofício.

É comum no meio cervejeiro artesanal que os produtores deem nomes próprios às suas criações. Copiei a ideia e gostei da brincadeira, encontrei receitas que melhorei durante um ano e pouco de atividade, lancei minha primeira cerveja com certidão de nascimento.

PRETENSIOSA

A primeira cerveja da Oficina e Ofício com nome próprio. Escolhi aquela que foi inspirada nas cervejas de duplo malte, também chamadas de Dubbel. Em garrafinha estilo caçulinha, com 300ml, é ainda do tempo em que o rótulo, produzido em casa, rústico, ainda era feito com papel branco.

Simples – Cervejas de Malte

No ano passado criei uma receita chamada Simples.

Nesse ano, por ser uma cerveja leve, fácil de beber, mais adaptada a serviços ligeiros do que cervejas mais complexas como a Excêntrica, estou ampliando a brincadeira da Simples.

Os cervejeiros brasileiros optaram para sua criatividade, em sua plena maioria, pela adição diferenciada dos lúpulos nas cervejas. O que temos hoje disponível são muitas variações sobre o mesmo tema, qual seja de cervejas amargas, bastante lupuladas, no estilo inglês chamado IPA, Indian Pale Ale. Ainda que cervejas escuras não sejam Pale Ale, então já teríamos algo como ISA, Indian Stout Ale e por aí vai.

Sou, reafirmando, meio contracorrente. Gosto muito do lugar incomum, não gosto sequer de andar sempre no mesmo carreiro. Minha brincadeira, sem esquecer dos lúpulos e fermentos, está mais centrada nos maltes. Gosto muito dos maltes por motivos variados. Primeiro porque o que determina mesmo se uma cerveja é honesta ou não é o uso de maltes na sua produção. Cerveja de quirera de milho pode até ter bom gosto ou aroma -e elas não tem- mas não são honestas.

Assim, na minha receita da Simples desse ano, vou brincar com os maltes especiais. A base da receita é de aproximadamente 94% de malte Pilsen e 1% de malte Special B. O restante do malte, que deve variar entre três e seis porcento, será de outros maltes especiais. Comecei com o Biscuit, hoje preparo outra leva com o Ruby, mais pra frente o Chocolate… O malte Pilsen dominando o volume total, os lúpulos em uma estranha combinação de Premiant e Willamete, devem segurar a identidade base da receita.

Pra já, saúde!

Etílica e o retorno ao cotidiano cervejeiro

Etílica e o retorno ao cotidiano cervejeiro

Voltando gradativamente para as atividades depois de quase dez dias com o peito e a garganta arrebentando por uma gripe, resolvi começar pela cabeça, ou seja, pelo lúdico prazer de degustar minhas cervejas mesmo a trabalho.

Essa taça contém a Etílica, um teste de carbonatação* da última leva. Vou falar um pouco bem da minha cerveja.

Ela tem bonita cor, talvez clara para o que se espera para uma strong ale, é uma escolha desse cervejeiro. Ela sai do amarelinho sem escurecer demais o que denota para já a utilização controlada dos maltes especiais, costumeiramente escuros. Lembrando ser uma cerveja de panela, ela não foi muito caramelizada na fervura, quando quero caramelizo e até induzo taninos da casca do malte na mostura. Os maltes especiais foram utilizados em boa variedade mas a quantidade medida com parcimônia dando a ela um espectro bastante grande de aromas e sabores. A espuma, de média persistência, é suficiente para preservar a cerveja durante um bom tempo para a degustação, além de deixar marcas bonitas na taça.

Para quem bebe uma cerveja produzida por mim quero lembrar algumas coisas:
* São puro malte e puro grão
* Não utilizo melhorantes de espuma, de cor, de sabor, de aromas.
* Não utilizo produtos naturais ou não para auxiliar na decantação, nem para facilitar fermentação.
* Não filtro
* Não pasteurizo
* Refermento na garrafa

Saúde a quem estiver bebendo uma cerveja de verdade, meus pêsames a quem está bebendo propaganda!

*Teste de carbonatação = saber se há gás carbônico suficiente na garrafa que está em processo de refermentação.

Poeminha cervejeiro

Poeminha cervejeiro

O sol procura abrigo
por detrás do horizonte
O caldo fervente espera
o gesto frio que lhe apronte
O labor do dia finda
acordando o cancioneiro
O fermento aguarda o mosto
pra alegrar o cervejeiro.

Regulamentação cervejeiro caseiro – MAPA (segundo artigo)

Em janeiro desse ano houve uma reunião com o ministério da agricultura, discutiram uma projeto para criação do ‘cervejeiro urbano caseiro’ através de uma consulta pública. A princípio, está valendo, dá pra se mexer e tentar o registro… Porém afora o reconhecimento da existência desse indivíduo, a legislação não auxilia essa espécie de nanocervejeiro e praticamente inviabiliza a atividade. O abaixo fala de um assunto correlato, por isso da importância para minha área, assim está aqui.

Em fevereiro o MAPA (Ministério da Agricultura) fez outra reunião, essa atinge a qualquer pessoa que beba cerveja. Entre as discussões, a grande indústria (que usa corante caramelo) solicitou ainda que a quantidade mínima exigida de malte na cerveja caísse de 50% (que obviamente eles já não usam, segundo a USP e a UNICAMP) para 20%… Vejam, há uma confusão sobre minha opinião quanto a qualidade do que a indústria vende. Eu não estou nem aí com o que eles vendem, também não estou me importando com o que consumidor escolhe para beber, são adultos, azar dos dois se escolhem mal. (mais…)

Cerveja super premium o escambau!

Acabo de assistir um video da Brasil Brau em que o representante da cervejaria diz que está implantando três unidades produtoras, uma de cervejas premium, outra premium plus e outra super-premium… Que merda ouvir isso, é como dizer que o créu é bossa nova na velocidade 1, 2 e 3… Não importa se o que se fez é bom, a autoproclamação é só truque de marketing. Esse povo tá na onda da budweiser que entrou no Brasil como cerveja premium. Gente, aquilo era mentira de departamento de marketing, agora qualquer cerveja quer dizer que é ‘plus sou melhor que as outras’. Pena que estão escolhendo esse caminho de semântica ruim.
O Brasil está construindo um espetacular universo de ambeves artesanais, para mim, falta artesania e sobre oportunismo. Cervejarias artesanais, respeitando o que é um produto artesanal, estão diminuindo conforme as microcervejarias crescem em volume de produção. Não acredito que um empresário que monta cervejaria por oportunidade de negócio, porque pode dar dinheiro, tenha cuidado com o produto que entregará como o respeito cultural que o produto carrega ao longo da vida cervejeira. Por outro lado carregam mais uma avalanche de cervejas sem espírito para o mercado. Espero seja apenas um primeiro momento e que os novos ricos das microcervejarias olhem para a cerveja sem ‘limpar’ dos seus horizontes os cervejeiros que procuram outro caminho, diverso do mundo da repetitibilidade industrializada, quer ela tenha qualidade ou não.
Artesanal é um produto com identidade ímpar, obrigatoriamente tem identificação com quem o elaborou. Desde quando uma microcervejaria mantém os mesmo cervejeiros indefinidadmente como seus ‘patrimõnios culturais’ afim de manter a identidade requerida na artesanalidade. Quanta balela na carona de algo que não só não foi construído pela engenharia industrial como já foi praticamente destruído por ela.  Quando vamos aprender que não importa o que fazemos, o reconhecimento deve vir de fora, de dentro basta a aplicação verdadeira e, quando é verdade, o orgulho do que se faz para além da busca do lucro. Mania do povo se autoproclamar ‘prêmio’ no início das atividades sem ganhar nenhum com o tempo.