O meio cervejeiro artesanal está apregoando num tom de bom moço que não existe isso de cerveja de mentira, que cada um fica na sua, que tudo bem se alguém diz que sua cerveja de verdade é redonda. Alguns dizem até que é falta de respeito chamar as industriais de larga escala de cerveja de mentira. Há poucos dias li gente defendendo a grandes industriais no quesito qualidade, afirmando que elas tem processos espetaculares, cuidados de produção e tal… Discordo.

Ainda tem muita gente defendendo as grandes marcas de cerveja. Mesmo no meio das cervejarias e cervejeiros artesanais há quem ‘pegue macio’ com a mega-indústria,  ficam de meios-termos, mas a realidade é diversa, a indústria não joga limpo, ponto.

Vou citar um truque simples desses conglomerados. Para produzir cerveja utilizam cereais não malteados, tudo bem. Mas veja, o milho produz muito mais álcool do que a cevada. A limitação legal para utilização das matérias-prima é de 55% de malte. Pois bem, se a indústria utilizar 45% de milho e este produz 80% mais álcool do que a cevada malteada, fica fácil ver que mais da metade do álcool que bebemos nessas cervejas provém de matéria-prima inferior, ou seja, o produto final não é originado de um produto desejado -cereais malteados- e sim de subprodutos, afinal o que faz o mosto não ser um chá de malte e sim cerveja, é exatamente o álcool. Penso que a lei deveria cuidar para que mais da metade do álcool produzido fosse de cereais malteados, mas não é assim. Para mim, mais uma lei brasileira inócua.

                                  Álcool total 5%             Proporção do álcool por origem
Malte    55%                      1,87%                                      37,4%
Milho    45%                      3,13%                                      62,6%

O raciocínio é assim:

Se 1 quilo de milho corresponde a 1,8 quilos de malte na conversão de álcool, então para cada 1% de álcool de milho temos 0,55% de álcool de malte. Bom, a proporção de malte é de 1,22 quilos para cada 1 quilo de milho (nem vou falar do arroz).
Logo numa receita de 100 quilos (to tentando facilitar a visualização da conta) temos 55 quilos de malte e 45 de milho, certo?
Em proporção na conversão de álcool temos 55/1,8*1,22 = 37,3 % de álcool de malte (37,3 quilos em 100 na conversão). Então o furo está aí, a malandragem está aí, a brecha da lei, lugar comum de malandragem, está aí.

Agora suposições:

Para ter 5 litros de cerveja com 5% de álcool eu precisaria de 1 quilo de malte. (óbvio que isso é uma suposição, porém é bastante razoável)
Esse quilo de malte custaria entre R$2,50 e R$3,00. Para cada litro de cerveja meu custo em cereais seria de R$0,50 a R$ 0,70.

Para ter 5 litros de cerveja com 5% de álcool eu precisaria de 550 gramas de milho. (idem na suposição e razoabilidade)
Esses 550 gramas de milho (cotação a R$30,00 por saca de 60kg em 27/12/12) custariam R$0,28. Para cada litro de cerveja meu custo em cereais seria de R$0,06 aproximadamente.

A opção pelo milho retorna 8 litros de cerveja contra 1 se usarmos malte, considerando o valor investido na matéria-prima.

Qualidade?

Saúde!

Obs: Em outubro comecei o artigo e escrevi o que está abaixo. Agora já acho até desnecessário, já estão vendendo gato por lebre.

“Logo, logo, ainda nesse ano de 2012, as grandes cervejarias começarão a lançar porcarias de cerveja ‘inspiradas’ em estilos, previamente estudados por seus departamentos de marketing, falsificando os estilos, ou seja, fazendo com a cara do estilo, mas não com a verdade do estilo.
Quem sabe quando isso acontecer os artesanais entendam que existe cerveja de mentira simplesmente porque existe cervejaria de mentira, mega-indústria é uma delas.”