A primeira brassagem que fiz, minha primeira leva de cerveja, marcou o início de um negócio pensado para unir o máximo de conhecimento que havia reunido em pouco mais de quarenta anos de vida. Claro que não falo de conhecimento cervejeiro, muito menos de produção, mas sim de generalidades, tanto empíricas quanto acadêmicas.100 Meu objetivo, o mesmo atual, fazer uma cerveja simples e honesta.

Agora completei a centésima brassagem*, isso é muito significativo em minha história. Tanto que se essa for a última, sinto um ciclo completo de existência. Sim, pretendo continuar a faina, já disse que essa é possivelmente a atividade que mais me agradou até hoje na vida, no que se refere a fazer coisas para sobreviver e para trocar por coisas que, ou me sustentam ou me alegram.

Contando que comecei com menos que o mínimo de estrutura financeira para iniciar um negócio, precisei e recebi muitos apoios. Direta ou indiretamente, comprando minha cerveja em encomendas no escuro, vendendo por confiança, emprestando dinheiro (alguns sem ainda receber), algumas pessoas tiveram a oportunidade de me auxiliar e fizeram isso. O Fábio Amari que se alegrava e ria das minhas pirotecnias philo-pragmáticas, o Ricardo de Souza com seu gigante entusiasmo, meu irmão Evandro vivendo a transformação íntima e o desenvolvimento de uma nova etapa. Tenho certeza que muitos outros foram tão importantes, caso do Fernandão apoiando desde o começo, estes nomes são uma menção que se estende. Minha segunda brassagem foi com minha namorada, eu então já havia sentido o gosto da minha primeira cerveja, ainda verde. A Lisiane continua aqui brindando, experimenta, faz sua crítica e continua dando seu aval para as cervejas que fecho nas garrafas, devo estar em bom caminho. No decorrer da produção, do conhecimento, da gradual melhora técnica, o leque de pessoas que se envolveram nesse processo foi espetacular, amigos que se uniram no auxílio, que brindaram, novos amigos, clientes, pessoas de longe como o Luiz Fernando que contou histórias com a minha cerveja, o Sergio colocando a banda Jumpin Jacks no rótulo, a Chris encomendando garrafas com rótulos homenageando pessoas, a Luciana com os olhos do encantamento na filosofia, feitura e no produto, Irene e Massimo tratando com tanto carinho, gente enviando fotos e muita gente bebendo… Cem vezes mais coisas do que minha memória momentânea comporta.

Sinto que fiz bem em começar, sinto que me fará bem continuar. A todos os que souberam e aos que saberão… Um grande abraço do cervejeiro!

* Brassagem: chamo disso todo o processo de preparação do mosto cervejeiro, desde a moagem dos maltes, passando pelo ‘cozimento’ até a inoculação do fermento. A parte mais braçal e orgânica de envolvimento do cervejeiro com o produto.