Porque não sigo uma receita campeã, ou testada, original, catalogada, aos poucos me sinto a vontade em falar mais de inspiração do que de classificação. Existem catálogos sobre cerveja e tabelas dividindo elas. Porém a cada dia percebo que são quase infindáveis as nuances que podem fazer de uma cerveja um tipo inclassificável nos padrões que conhecemos. Sou a favor dos guias, orientam os experimentadores. Porém estou convencido de que cervejas como as da Coruja informam muito mais em seus rótulos mostrando amargor, teor alcoólico, densidade original, temperatura ideal de degustação do que as indústrias de bafebaca mentindo que suas cervejas de gôndola são pilsen. (bafebaca = bebida fermentada alcoólica à base de cereais)

Experimentei algumas cervejas Stout e Porter, poucas. Com bastante malte torrado, gostar mesmo, só da Petroleum… mas aí é covardia, ela é inclassificável, seja pela ousadia da DUM cervejaria, seja pela excelência da Wäls. O sabor acentuado de café não me agrada e olha que sou bebedor de café forte e sem açúcar. Enfim, isso não depõem contra as Stout e Porters, mas me norteia como cervejeiro caseiro. Lembro antes de criar uma receita que vou, no mínimo, fazer testes de degustação no mosto, na fermentação, na maturação, na preparação para o envase, durante a refermentação e, se não vender tudo, em alguma garrafa já pronta. Isso já limita de alguma forma minhas experimentações pois não sou masoquista, portanto, considerando minha produção limitada, dou prioridade a cervejas que provavelmente vou gostar de beber.

Em casa, gostando de modificar malte pilsen na frigideira ou panela de arroz, resolvi fugir do conhecido e me agarrar ao intermediário. Criei minha interpretação de uma Brown Porter. Essa cerveja sucede uma bem sucedida brassagem, a 12052, em que me inspirei na Dubbel. Pular de uma cerveja muito complexa para uma comportada e imprimir nela alguma personalidade me desafiou. Também tem o ego no meio, bem a base do ‘será que eu não deveria agora me dedicar só a cervejas superplusultramegadiferentesespeciaispremium’? Fico feliz em descobrir que acertei em responder não.

A Brown Porter agradou e surpreendeu minha sobrinha Mayara. Queimei umas beringelas na boca do fogão a gás, abri elas num corte longitudinal, temperamos com azeite, alho picado, queijo mussarela e coisinhas. Primeiro abri a Dubbel, suave e maltada de tal forma que escondia os 9% de álcool. Ela quase não acreditou que era tão forte. Depois a Brown Porter que para mim era, naquele momento, um desafio. Minha sobrinha não conhece muitas cervejas artesanais e caseiras como a minha… acho que não havia experimentado. Gostou muito. Amarga, castanho-escuro na cor, com um toque de cacau ou chocolate amargo, fechou nosso jantar. Fiquei feliz, bastante.

Estou preparando as garrafas para o envase de uma cerveja de trigo um pouco atípica, também na faixa dos 7,5% de álcool, de amargor baixo e bom corpo maltado. Estou  bem curioso com ela. Para próxima semana começo uma série de Pale Ale e Strong Ale, pelo menos duas brassagens de cada, vamos ver o que refaço nas cervejas menos complexas. Saúde!