Nisso do fazer artesanal tem identidade. O dual bom/ruim é provavelmente o primeiro conceito que cai por terra. Acontece que esse ‘a priori’ chamado identidade delimita o desenvolvimento do objeto criado pelo artesão. Esse limite não está atrelado inexoravelmente à capacidade tecnológica avançada adquirida com equipamentos, antes está no cabedal de conhecimentos do artífice e na disponibilidade de recursos do seu entorno.

Quando o Christiano perguntou quando faria outra Strong Ale (minha barbante laranja tradicional) minha veia ‘vendedor’ quase respondeu com um chavão do tipo ‘em breve’ ou uma máxima dos empretecos no estilo ‘vamos negociar quantas?’ já pensando no movimento. Vender é indissociável de produzir comercialmente. Receber em dinheiro as vendas, lucrar com os produtos, tudo isso é parte do negócio cervejeiro, mesmo nesse nível caseiro, ou talvez e mais imprescindivelmente ‘nesse’ nível. Mas como diz o Alexandre Bazzo da Bamberg, aqui quem faz cerveja é o cervejeiro e não o departmento de marketing, tanto que não tenho um. Ato contínuo lembrei do Christiano, que com todas as letras não está a fim de beber uma cerveja feita pelo departamento de marketing… hehehe.

Pois bem, calculei uma nova receita, como estava sem um dos maltes da strong, deixei a Pale Ale da brassagem 12051 um pouco mais alcoólica, chegou a 6% e preparei uma Dubbel.
Já esclareci na página do facebook que seria FALSA Dubbel porque não vou usar fermento belga e vou fazer algumas outras alterações, mesclando o sabor maltado, baixo amargor e bom aroma de lúpulo. Deveria ficar na linha da Strong Ale por causa do malte base utilizado, da graduação alcoólica entre 7 e 8% e do amargor médio. As diferenças estariam no sabor mais pronunciado de malte, no aroma mais acentuado de lúpulo, no amargor médio/baixo e na cor um pouco mais escura.
O que seria mesmo uma Dubbel? Uma cerveja belga produzida em mosteiros, com muito malte para ter muito corpo, muito sabor e muito saber. Uma ideia sobre o assunto pode-se ter bebendo uma Leffe Blond, ou pergunte sobre cervejas trapistas no seu bar.

O que resultou dessa provocação do Christiano:

Uma cerveja espetacular. E em que peculiaridades o bom dela?
Começou pela graduação alcoólica que atingiu 9%, a mais alta que produzi até hoje. Depois pela maturação que resolve o impacto do álcool resultante da fermentação, poque os nove porcento de álcool são, creiam, uma elevada graduação para qualquer cerveja, e esconder isso é obra. A cor dela é bonita, sem ser demasiadamente escura, tampouco opaca. Os retrogostos não ferem a garganta, o aroma é levemente maltado apesar de ser uma duplo malte.

Essa cerveja começou com um corpo mesmo alto do mosto, afinal uma densidade inicial de 1.074 é praticamente o topo do estilo, modéstia bem à parte, não errei o tiro. Engarrafei a Dubbel dia 25 de julho, ela só poderá ser consumida a partir do dia três de agosto, provavelmente. (Em 04/01/2013 fiz um vídeo degustando ela.)

Estou para receber os maltes e fazer novamente a Strong, mas antes já calculei uma receita de trigo, não escura como a última que foi inspirada numa Dunkel. Provavelmente seguirei o ímpeto do sabor bastante maltado, um bom teor de álcool para o inverno. Detalhes nos próximos capítulos.