O artesanal é símbolo da variedade. Num processo industrial não obter o mesmo produto a cada repetição, é ruim.

As limitações que nos impusemos ao longo do tempo para evitar falcatruas, enganações, pilantragens e afins, encurtaram nosso paladar. Provavelmente porque para ‘saber’ exatamente o que consumíamos na tentativa de defesa de produtores inescrupulosos, de baixa ou larga escala, reduzimos as variações inclusive de sazonalidade. Rastrear e fiscalizar, verdade quando feito por todos, quando a cargo de governos… bom, vida de fiscal não deve ser fácil.

Sou artesão. Um produto artesanal não se repete, possui variações, altera características entre um momento e outro de produção e, vejam só, ainda assim mantém identidade. A identidade é que dá a qualidade do rastreamento de um produto.

Faço repetidamente um receita. Vez por outra, pela sazonalidade ou disponibilidade de alguma matéria-prima, substituo por outra que julgo equivalente. Um malte pilsen argentino por um malte pilsen belga, um lúpulo de alfa-ácidos menor por um lúpulo de alfa-ácidos maior, assim por diante, respeitando a regra de não substituir itens como malte de cevada por milho porque seria picaretagem, obviamente. Se algum dia substituir ainda que parcialmente um malte por um cereal, a informação estará bem visível no rótulo, o bebedor tem direito de saber, mas principalmente, me imponho o dever de informar claramente, creio que isso não é substituição, mas sim uma troca.

E o que isso tem a ver com repetitibilidade. Tudo. Os processos industriais, para conseguir o que não é possível fabricando produtos oriundos de matérias-prima com significativas alterações entre safras, manufaturas, períodos de estocagem… utilizam subterfúgios. O artesão, aquele que produz artesanalmente de fato, não tem esses recursos, não utiliza por purismo, ou decide que não vale a pena. Decidi que não vale a pena.

Assim, entre uma e outra leva da minha mais repetida receita, não encontramos a repetitibilidade industrial. Entre uma e outra leva da Hedônica, Pale Ale e cerveja base do meu trabalho, as variações são muitas. Às vezes mais seca, outas mais amarga, outras mais aromática, outras mais translúcida, outras com maior carbonatação, variam bastante para quem já se acostumou a prestar um pouquinho que seja de atenção ao que consome. A identidade, porém, continua lá.

De onde vem essa identidade? Bom, fazemos assim, você bebe, aprecia, compara e se diverte com ela sem se preocupar. Sobre as variações sobre o mesmo tema, eu sei de onde vem.